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Heróis, os vilões da cultura organizacional

  • Inovação e Gestão

Se você trabalha com software com certeza já ouviu falar, ou mesmo trabalhou, em projetos “Death March”, que são projetos destinados a falhar. Os colaboradores que se sacrificam para tentar concluí-los, muitas vezes são chamados de heróis. 

Apesar de parecer positivo, o heroísmo pode trazer muitos malefícios, tanto para o colaborador, quanto para a empresa.

Por alguns anos trabalhei como herói, sempre “peitando” projetos impossíveis, passando madrugadas em claro e fazendo mais horas extras do que achava possível. Tudo isso para, ter uma pequena chance de sucesso. 

Com o tempo você acaba esquecendo da sua “identidade secreta”, ou seja, sua vida é seu trabalho.

Felizmente tive a oportunidade de largar a capa e a máscara, e agora compartilho com vocês 7 padrões que vivenciei de uma cultura organizacional sustentada por heróis.

7 padrões da cultura organizacional sustentada por heróis

super herói deitado no sofá cansado e ao lado a frase "a justiça nunca dorme"

1 – A justiça nunca dorme!

Um grande aspecto dos super-heróis são as jornadas de trabalho. Jornalista de dia e herói a noite, talvez o maior poder do homem de aço seja não ter olheiras! 

Quando você faz mais de 16 horas por dia, por mais de uma semana, mesmo sem perceber, sua qualidade cai drasticamente. 

Geralmente, devido aos prazos absurdos e funcionalidades mal planejadas, são necessárias muitas horas extras para que o projeto tenha uma chance de “sucesso”.

Este é um sintoma de uma cultura organizacional falha já que trabalhar mais horas não significa produzir mais.

Oito horas por dia é mais do que suficiente! Não estou excluindo a possibilidade de fazer horas extras, mas elas devem ser menos comuns e sempre negociadas. Acreditem: isso é possível quando o planejamento é feito sem considerar superpoderes. Métricas devem ser utilizadas para garantir prazos razoáveis, baseando-se em dados e não em achismos.

2 – Vilões

Uma coisa que todo super-herói tem em comum é que cada um tem seus próprios arqui-vilões. Mesmo que às vezes esses heróis se unam, na maioria das vezes eles estão “solo”. Por exemplo: se o Batman precisar da ajuda do Superman, e ele estiver ocupado salvando a Lois Lane (geralmente ele está), ele terá que “se virar”. 

ilustração do batman dando um tapa no rosto do Robin com a frases dentro de balões "yeah! had to use my bat glove" e outro "batman! no toilet paper"

Em um projeto impossível isso também é verdade. Mesmo que exista uma equipe, cada um tem seu próprio vilão para combater, e geralmente não sobra muito tempo para ajudar os outros.

Nesse cenário, o trabalho em equipe é praticamente inexistente e grande parte dos seus benefícios não são aproveitados.

Peter T. Coleman em “The Science of Teamwork” mostra que a colaboração é um dos pontos mais relevantes para a eficiencia de uma equipe.

imagem com quatro super heróis segurando uma pedra e ao lado uma frase "trabalho em equipe"

Em um ambiente “sem capas” todos se ajudam para vencer os obstáculos. Não é como se cada indivíduo não tivesse suas próprias habilidades, mas eles têm tempo para ajudar um ao outro e até mesmo disseminar seu “superpoder”. 

Técnicas como pair programming, daily e retrospectivas auxiliam a manter a equipe em contato, promovendo uma cultura organizacional baseada em trabalho em equipe.

batman olhando o sinal do seu símbolo no céu e ao lado a frase "sempre alerta"

3 – Sempre alerta!

O superman nunca desliga a sua super-audição, o Batman sempre vigia os céus em busca do bat-sinal.

Às vezes, ficar muito focado em um problema pode tornar mais difícil encontrar a sua solução.

Quem nunca resolveu um problema indo à padaria, ou fazendo outro tipo de tarefa? 

Intervalos como café da manhã, café da tarde, massagem, ou qualquer outra pausa no ambiente de trabalho podem trazer mais vantagens do que podemos avaliar. 

Além de possibilitar que as pessoas troquem conhecimento, uma pausa pode fazer com que você “desligue-se” dos problemas, algumas vezes tornando mais fácil resolvê-los. 

Por exemplo, a Amanda Ruggeri  escreveu o artigo “Por que ‘não fazer nada’ pode te ajudar a ser mais produtivo no trabalho”, nele ela resalta:

“Mas, enquanto preenchemos nossos dias com mais e mais afazeres, muitos de nós já percebemos que a atividade ininterrupta não é o ápice da produtividade. Mas, sim, sua adversária.” 

Portanto, esse tipo de pausa pode trazer benefícios para a própria empresa, aumentando a produtividade e o bem-estar dos colaboradores.

super herói em pé e a sombra de outros homens admirando com a frase ao lado escrito "capangas"

4 – Capangas

Não precisa ser um super-vilão para dar trabalho, provavelmente o Batman perde mais tempo com cem capangas do que com o coringa!

Geralmente para concluir uma tarefa, precisamos realizar uma série de ações repetitivas e muitas vezes burocráticas. 

No ambiente “caótico” dos super-heróis, é muito difícil sobrar tempo para que essas ações sejam automatizadas ou mesmo repensadas, fazendo com que elas tomem tempo desnecessariamente ou sejam ignoradas.

Processos bem pensados e automação constante reduzem ou mesmo acabam com os trabalhos repetitivos. Investir nesse ponto, além de facilitar o trabalho do colaboradores, ajuda na consistência. 

Por exemplo: quando fazemos o deploy de uma aplicação, devemos realizar inúmeros passos em uma ordem correta, o que torna muito fácil pular ou esquecer um dos passos. Mas com esse processo automatizado garantimos que todos os deploys sejam feitos da mesma maneira, evitando erros.

Martin Fowler em DevOpsCulture comenta sobre esse ponto:

“A automação é uma pedra angular do movimento DevOps e facilita a colaboração. A automação de tarefas como teste, configuração e implantação libera as pessoas para se concentrarem em outras atividades valiosas e reduz a chance de erro humano.”

manopla do thanos com as cinco pedras sobre ela e os dedos estralando. ao lado a frase "virando cinzas"

5 – Virando cinzas

Às vezes os vilões ganham! Podem não conseguir matá-los em apenas um confronto, mas o dano acumulado pode matar até mesmo os heróis!

Na minha experiência, empresas que dependem de heróis costumam ter um alto nível de turnover, por dois fatores:

  1. Nem todos estão dispostos a serem heróis;
  2. Os heróis acabam não suportando o ritmo de trabalho.

O primeiro fator tem um impacto muito menor se comparado ao segundo, porém não pode ser desconsiderado. 

Toda empresa, mesmo que minimamente, investe tempo em preparar os novos colaboradores e quando ele sai, esse tempo é desperdiçado.

Já o segundo fator pode facilmente prejudicar um ou mais projetos. Isso ocorre pois, além de perder um herói, outro terá que assumir as suas responsabilidades, muitas das vezes sem ter o conhecimento ou a habilidade necessária.

Os fatores anteriores diminuem o turnover significativamente. E mesmo que aconteça de um colaborador se desligar da empresa, a troca constante de conhecimento faz com que o impacto não seja tão severo.

A cultura organizacional que valoriza o colaborador pode reduzir os custos em várias frentes,por exemplo, com um menor índice de turnover, gasta-se menos recursos  na contratação e desligamento.

batman e robin dando aperto de mãos e a frase "the superhero sidekick" em cima

6 – Sidekick

Ser o Robin não tem nada de legal, seu chefe é muito exigente e ele geralmente tem dois destinos: ou morre ou muda de patrão.

Devido ao custo em perder um herói, as empresas geralmente acabam promovendo-os a algum cargo de liderança sem o devido preparo, ou mesmo o perfil para isso.

Com isso os heróis assumem um papel bem diferente ao de bater em vilões, e acabam tentando gerenciar alguns sidekicks.

Com um chefe assim os liderados têm o mesmo destino do Robin, mesmo que se tornem um herói, a chance de continuar na equipe ou mesmo na empresa é muito baixa.

Líderes são preparados para a função! Trabalhar na formação deles ajuda muito no desempenho das equipes.

Grande parte da cultura de uma empresa começa com seus líderes. Uma empresa com líderes heróis tende a ter uma cultura que depende deles para ter “sucesso”. 

Jim Whitehurst, no seu artigo “Leaders Can Shape Company Culture Through Their Behaviors”, dá um bom exemplo: empresas que querem ser inovadoras precisam de líderes que saibam tolerar falhas. Uma equipe que não pode falhar é uma equipe que não “aposta”, não se arrisca a desenvolver algo novo, portanto não inova. 

Os líderes têm um papel muito mais importante que apenas cumprir sua posição dentro de um projeto. São eles quem definem a base para a cultura organizacional.

7 – “Sucesso”

Já perceberam que, muitas vezes durante uma batalha, metade da cidade é destruída? Mas o importante é que o vilão é derrotado! E quem paga pelo conserto?

No fim de inúmeras horas extras, mesmo que entreguemos o que foi pedido, podemos acumular débito técnico. 

Nesse tipo de ambiente são raros os caso em que, logo após o fim de um projeto, temos tempo para consertar os estragos feitos. Assim, o tempo para concluir uma atividade aumenta, gerando um ciclo vicioso.

Sem superpoderes menos coisas são destruídas!

Os demais fatores têm grande influência nessa parte, técnicas como pair programming, testes unitário e testes cruzados aumentam significativamente a qualidade. 

Mas isso é possível se tivermos colaboração e tempo suficiente para executá-las, gerando um sentimento coletivo de “ownership”. Ou seja, todos são responsáveis pela qualidade final do projeto e lutam por ela. 

Dessa forma, dificilmente teremos muito débito técnico, e mesmo se ocorrer (algumas vezes podemos optar por fazê-lo estrategicamente) é mais fácil reduzi-lo posteriormente.

Conclusão

Heróis não são o problema em si, são apenas um sintoma, precisar deles indica um série de problemas. 

Estimativas falhas e não re-alinhadas elevam a dívida técnica que, por sua vez, prejudica a previsibilidade e afeta as estimativas nas próximas iterações. 

Portanto, a cada nova tarefa o tempo necessário para pagar a dívida técnica cresce, a imprevisibilidade se instaura e as estimativas se tornam apenas “chutes”, saltos de fé. 

Esse processo, além de afetar a cultura da empresa, prejudica o relacionamento com o cliente. A falta de confiança faz com que o cliente cobre as entregas constantemente, elevando a pressão na equipe. 

Este ciclo destrutivo não é facilmente parado, ele é o “super-vilão” real das empresas de software e eliminá-lo irá exigir muito mais do que superpoderes. 

O custo envolvido vai muito além do dinheiro, será necessário tratar a cultura organizacional e levará tempo para mostrar resultados. Mas lembre-se:

“Se a fase é ruim 

E são tantos problemas que não tem fim

Não se esqueça que ouviu de mim

Amigo, estou aqui!”

Toy Story – You’ve Got a Friend in Me por Randy Newman

Dica extra!

O último ponto é: não tem nada de errado em buscar ajuda. 

Uma consultoria pode alavancar as transformações necessárias, apontar problemas e buscar soluções de uma maneira mais orgânica e, de preferência, incremental.

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